pela longa ausência...
mas há alturas que tudo nos ultrapassa, passamos a viver um dia de cada vez, tentamos suportar o que acontece à nossa volta sem reagir...
a longa ausência deveu-se a tanta coisa. nem sei se consigo explicar. justificar(?). primeiro excesso de trabalho. depois ausência de trabalho. problemas familiares. (tantos). e a incapacidade completa de partilhar as coisas. neste campo acho que estou pior. parece-me que quanto mais partilho mais as coisas crescem, ganham vida própria e eu perco o controlo. na verdade há muito que não consigo controlar tudo o que me rodeia... talvez nunca tenha conseguido, mas a verdade é que tinha essa ilusão.
há tanta coisa má a acontecer... vejo todos os dias à minha volta o pior daqueles de quem esperava o melhor. se calhar eu já sabia que as pessoas eram assim. se calhar já as conhecia. mas queria muito acreditar no seu lado bom. não têm. sei com uma certeza que me vem do coração que há uma parte do meu mundo que vai acabar. vai em breve acabar o tempo de ser neta. e acaba-se também o tempo de acreditar. de ter família. acaba uma grande parte de mim. o melhor de mim, talvez. o que restava da capacidade de sonhar. de acreditar. o que restou dos tempos de infância. já não vou conseguir voltar ao que era. a sinceridade (maldade (?)) matou a esperança que havia em mim num ideal de família. por isso, acaba-se essa família. já acabou na verdade, antes mesmo do fim. acabou nestes dias, em que são capazes de abandonar quem lhes deu vida. quem lhes deu o melhor de si. quem esperou que com ele fosse diferente. não foi. e isso faz-me chorar uma e outra vez. faz-me afastar de tudo e de todos.
e vai daí e no meio disto tudo percebo que há, talvez, uma lógica nesta coisa de ser filho único. prepara-nos melhor para se ser solitário. para sobreviver sozinho. para resumir a nossa vida a um circulo de pessoas cada vez mais pequeno. o meu fica agora tão pequeno.
eu sei que vou continuar. uns dias vou sorrir. outros vou chorar. mas a verdade é que antes do fim acontecer já transformou tudo. já revelou tudo. e isso mata-me todos os dias um bocadinho. esta dor antecipada, é o pior de tudo.
às vezes olho ao espelho e acho mesmo que sou forte. continuar a sair de casa quando nos apetece só ficar fechado num quarto escuro. sorrir quando nos apetece chorar. fazer uma vida quase normal, quando nos apetece desaparecer daqui. só pode ser um sinal de fortaleza. ou de fraqueza em admitir que há uma altura que já não aguentamos e também precisamos desabar... mas sei que neste momento a minha mãe precisa que eu continue... e eu por ela vou continuar. no mesmo registo, ou talvez não, porque já nada pode ser igual.
acabei o meu "regresso" a chorar. deve estar tudo uma confusão. não era o objectivo escrever isto. só não apago tudo e volto ao meu silêncio, porque conto com a tua capacidade de não questionar. de não puxares o assunto. de me deixares ficar aqui sossegadinha. e tenho esperança em ti, em que não te desiludas e não fiques triste com as minhas ausências, que são muitas.
eu sei que às vezes pode parecer que não, mas eu ainda estou aqui. este cantinho vai sempre fazer sentido. é tão raro encontrar pessoas que são capazes de nos permitir desabafar, sem fazer perguntas, sem serem inconvenientes, sem quererem ir além daquilo para que estamos preparados. obrigada pica. e desculpa.
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